segunda-feira, 13 de março de 2017

A Influência do Folclore Árabe na Formação do Estilo Tribal

Ao abordar este tema precisamos mergulhar na história da dança do Ventre e sua evolução tanto no Egito quanto nos Estados Unidos. É preciso viajar no tempo. É preciso retornar à década de 70 e tentar, através dos escritos e de imagens, compreender o processo criativo de Jamila Salimpour e Macha Archer, duas grandes referências do período que vamos considerar “Pré Tribal”. É preciso considerar a mentalidade das dançarinas da época e a cultura vigente na Califórnia da década de 70.
Samya Gamal - Golden Age Era
Perceber a diferença entre a Dança do Ventre popular/folclórica, advinda do deserto e a Dança do Ventre que evoluiu para o glamour urbano da tela do cinema e do show business é fundamental para entender a diferença entre os estilos da Dança do Ventre do século XXI.
A evolução da dança do ventre no Egito, desde o final do século XIX até hoje em dia, traz a transição da dança popular egípcia (tipicamente ghawazee e beduína) em uma dança cênica, fusionada e glamorosa. Uma dança totalmente voltada para entreter a sociedade urbana, consumidora de cinema, frequentadora da vida noturna, com gostos cada vez mais refinados e europeizados. Encontramos nos filmes antigos algumas referências à cultura rural no Egito, incluindo suas danças e músicas, mas geralmente estas já eram apresentadas de forma estilizada tanto em concepção musical, como em coreografia. Esta dança, que evoluiu para o estilo egípcio moderno, que possui grande mercado de show business e se espalhou mundo a fora no final do século XX, é a inspiradora do estilo cabaré americano, estre outros.
Ouled Nail
A Dança do Ventre base, de raiz é aquela ligada às danças populares e folclóricas de países do Norte
da África e oriente Médio e são conectadas aos hábitos dos povos do deserto e têm origem milenar. Falamos dos povos nômades, de beduínos, berberes e ciganos. As ciganas ghawazee egípcias, mesmo tendo já há muitos séculos se estabelecido em cidades, têm no DNA da sua arte a estética desenvolvida ao longo das migrações pelo deserto e intercâmbio com estes outros povos. As movimentações femininas de povos da região do Magreb, como a dança das Ouled Nail , danças populares tunisianas e apresentações nos mercados populares são inspirações estéticas para o que vamos chamar de “dança do deserto”. Uma dança não “refinada” no sentido urbano da palavra, que usa elementos de seus povos, de suas vilas, de suas tradições mais antigas. 
Jamila Salimpour
Jamila Salimpour era dançarina de dança do ventre do estilo chamado “Cabaré americano”. Vamos tentar entender o que é isso em poucas palavras.... As primeiras apresentações de dança do ventre, nos Estados Unidos, aconteceram no início do século XX. Em um ambiente estrangeiro, dificilmente a arte se mantém pura, especialmente se a ela for agregada o talento natural que os americanos têm para show business e comércio. A dança do ventre coube naturalmente nos espetáculos de cabaré e não demorou para que as americanas aprendessem a dançar e o show encontrasse um formato adequado para o gosto público local. Temos que o estilo “Cabaré Americano” evoluiu ao longo do século XX em um ambiente multiétnico (devido a inúmeras imigrações de povos do oriente), com mentalidade artística inovadora e voltada para o comércio com o público americano.
Nas décadas de 60 e 70, somamos a este cenário o ideal hippie, a mentalidade da era de aquário, através da qual uma parcela da população americana busca uma espiritualidade conectada à liberdade do corpo e de movimento. A transcendência através da meditação, da música e das artes. A revolução sexual feminina. Isto tudo se encaixa perfeitamente ao que a dança do ventre pode oferecer à mulher californiana.
Mediante este contexto, retornamos à Jamila. Entre as décadas de 50 e 60 manteve contato com diversas dançarinas egípcias, turcas e armênias. Com elas aprendeu muito de seu vocabulário de movimentos. Ao se casar com Ardeshir Salimpour, pai de Suhaila, foi proibida por ele de se apresentar publicamente e foi quando começou a dar aulas. Sendo uma das primeiras professoras de dança do ventre nos Estados Unidos, Jamila compilou todo o seu conhecimento dos movimentos de diversas culturas e criou um mecanismo onde as americanas pudessem acessar a técnica da dança de forma racional, para que pudessem compreender e transformar em movimentos. Adaptou movimentos, estabeleceu padrões para os toques de snujs e criou terminologias, deu nome para os passos, muitos deles conhecidos por nós ainda hoje em dia como “oito maia” ou “hip drop”. Ela organizou os movimentos de acordo com as etnias de origem e é neste ponto em que finalmente chegamos ao objeto de observação deste artigo. 
Segundo Shareen El Safy, no artigo “Shaping a Legacy: A New Generation in the Old Tradition” As famílias de classificação de movimentos cridas por Jamila os dividia em “Tunisian, ” “Algerian, ” Moroccan,” “Egyptian, ” e “Arabic. ”  Significa que a movimentação de quadril ensinada por Jamila possuía características étnicas baseadas em danças populares regionais, não só nas apresentações de espetáculo ou nas dançarinas do cinema da chamada “Golden Age of Egyptian BellyDance".
Jamila Salimpour

Egípcias Ghawazee
Dançarina Bal Anat
Berbere Marroquina


Esta influência se torna cada vez mais evidente à medida em que ela estrutura as apresentações do grupo “Bal Anat” na “The Renaissance Pleasure Faire. ” Criado em 1968, o grupo Bal Anat combinava apresentações inspiradas no folclore tunisiano e magrebino com performances típicas de cabaré americano, com uso de acessórios como véu e espadas. A própria Jamila se encaixava nos shows sempre com lindos trajes folclóricos e maquiagens típicas das Ghawazee ou Ouled Nail. As bijuterias, os turbantes, os vestidos, toda uma estética de figurino e movimentação baseadas em etnias
Bal Anat
do norte da África, na região do Saara. A própria concepção cênica lembra as apresentações nos mercados populares de Marrakesh: Músicos em trajes folclóricos tocando ao vivo, dançarinas no palco formando um cenário vivo, o uso de acessórios folclóricos como cestas, jarros e mesmo serpentes. Estes elementos traziam às apresentações do grupo um aspecto exótico, muito valorizado na época. Com certeza, um grande diferencial no mercado de dança do ventre da época.
No grupo Bal Anat, analisando com cuidado, é possível perceber as duas influências, sendo, porém, tudo considerado “Belly dance”. Para nós é importante compreender que nenhuma delas, Jamila Salimpour, Macha Archer ou Carolena Nericcio, precursoras, ou mesmo criadoras, do que veio a se chamar Estilo Tribal, nenhuma delas deixou de considerar o próprio trabalho como Dança do Ventre. Dança do ventre, para todos os efeitos, é de onde veio, e o que define a linha estética do que é e do que sempre será, se não perder a sua essência.*
Vídeo Bal Anat – Influências Tribais X Cabaré Americano

Ainda sobre o Bal Anat e o trabalho de Jamila, vamos encontrar ali diversos elementos como vocabulário de movimentos, toques de snujs e padrões ainda utilizados como a base do Tribal. A maioria baseados em danças Ghawazee e Ouled Nail. Vale considerar que Ciganos, Beduínos e Berberes são povos divididos em diversas etnias, tribos e clãs, e que têm costumes e idiomas próprios. Embora, hoje em dia, sejam de maioria muçulmana, as tribos mantêm suas tradições da melhor maneira possível, apesar das inúmeras dificuldades de sobrevivência apresentadas nos dias de hoje. São considerados verdadeiramente tribais assim como seus costumes, suas músicas e danças.

Vídeo Danseuse des Ouled Nail (Algérie 1901)

Vídeo Banat Mazin Ghawazee

Segundo consta em diversos textos sobre a história do Tribal, Masha Archer foi aluna de Jamila Salimpour e criou o seu próprio grupo, que dirigiu por 15 anos: A San Francisco Classic Dance Troupe. Em sua trupe, Macha pôs em prática muito da estética Bal Anat para figurino e dança, trazendo, porém, alguns diferenciais. A percepção é a de que Macha derruba de vez algumas fronteiras culturais dentro da dança oriental e busca novos elementos em que se inspirar como o Flamenco, agregando flores e xales, bem como uma postura bastante altiva para a dança. É dito pela própria Carolena que no trabalho da San Francisco Classic Dance Troupe já existiam conceitos como o de formação, de coro e “feature” e que esta linha de trabalho foi levada por ela como base para as criações do grupo Fat Chance BellyDance® e que foi largamente ampliada e aprimorada ao longo do tempo de experimentações e que resultou na linguagem estética que hoje chamamos de American Tribal Style®.
Vídeo Macha Archer e San Francisco Classic Dance Troupe

O Estilo Tribal de Dança do Ventre, por tanto, captura a estética de vestimenta e movimentação das danças do deserto e produz um estilo novo e adaptado ao gosto ocidental com referências étnicas diversas que se combinam de maneira inusitada com apelo exótico e artístico. Com raízes tanto em danças tribais ancestrais como no pensamento libertário da das décadas de 60 e 70, o Tribal traduz um desejo de retorno à uma comunidade imaginária, feminina, livre, feliz e que encontra na dança sua maior celebração e união. Isto tudo muito bem elaborado, estruturado, organizado e divulgado por Carolena Nericcio e suas seguidoras que souberam bem comercializar e difundir pelo mundo este trabalho que se desdobrou no Tribal Fusion e o mar de possibilidades estéticas contemporâneas que surgiram a partir de então.
Carolena Nericcio e seu grupo em 1985


[1] Ouled Nail é uma tribo Berbere da região do Magreb, nas montanhas do Atlas na Argélia. Sua tradição ainda é matriarcal e têm na dança sua maior fonte de renda.

* Recentemente têm sido vinculada a informação de que Carolena Nericcio não mais considera o ATS® como um estilo de Dança do Ventre, mas um estilo de Dança. Isto porque as bases do ATS® juntam influências de outras danças matriz como o Flamenco e a Dança Indiana. Entendo que por ser o estilo muito recente em termos de história da Dança ele pode se manter em transformação de conceitos mesmo por sua fundadora, mas até bem pouco tempo, ainda se falava em ATS® como sendo Tribal Style Belly Dance - ou seja - Dança do Ventre

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Estilo Reda e Muwashahat - Música x Dança

Muwashahat é uma sofisticada forma musical que inclui vocalização e prolongados padrões rítmicos. Este gênero musical se originou na Espanha Islâmica durante o século dez.
Há uma descrição do estilo por Al Faruqi em seu artigo “A tradição andaluz”, como um poema estrófico apresentado com música, consistindo de repetidos retornos a uma mesma estrofe como um refrão musical.
Jihad Racy escreveu que “é aceito comumente que esta forma musical foi introduzida no Egito por um músico vindo de Aleppo na Syria no final do século dezessete. Este estilo se manteve muito presente na cultural musical do Egito até os primeiros anos do século XX.
Na moderna interpretação deste gênero, os intrincados e numerosos ritmos foram trocados por outros mais curtos e mais dinâmicos. Enquanto a forma essencial permanecia intacta, instrumentos ocidentais eram adicionados, juntamente com uma harmonia simples e contraponto. As letras dos poemas reeditados ainda retinham o idioma clássico e a metafórica forma descritiva da poesia mowashahat."






Estilo de Dança: Mwashahat Raqisah
Em 1979 Mahmoud Reda produziu para a tv, oito peças de dança. Elas foram coreografadas para as composições de Fuad Abdel Magid, um músico, que introduziu uma nova abordagem para este gênero clássico de música. Estas danças foram apresentadas no palco pela primeira vez no Cairo em 1980.
Reda diz que, “os significados e imagens evocados são intricadamente tecidos na estrutura dos poemas, como um laço bem dado”, o que é de fato pertinente ao significado da palavra muwashahat na língua árabe, que traz a ideia de elos de uma corrente.
Coreografar estas peças foi extensão de um trabalho criativo sem precedentes de Mahmoud Reda. A forma musical deste gênero, com seus variados padrões rítmicos, deu a ele novas bases pelas quais se expressar como coreógrafo. A qualidade estrófica das letras que acompanhavam a melodia influenciou sua escolha nas combinações de movimentos e nos desenhos espaciais.
Ele não tentou nenhuma interpretação direta do imaginário presente nos poemas, mas projetou em forma de dança o ânimo que cada poema evocava.

Fonte: Este texto está disponível quase que deste modo em diversos sites na internet. Possivelmente todas copiam e colam exatamente deste modo, então não consigo saber quem o escreveu.
É possível que seja de Ju Sobral em http://cursotecnicodanca.blogspot.com.br/2011/08/mahmoud-reda-e-sua-troupe.html

A grande fonte de pesquisa é mesmo o site de Farida Fahmy – WWW.faridafahmy.com



Minha percepção, experiência e aprendizado direto com Farida me leva a concluir que Mowashahat, enquanto linha estética de dança, está ligado ao que chamamos de estilo clássico de dança oriental, e que vêm a ser a marca registrada do estilo Reda. Mesmo em suas mais profundas pesquisas sobre o folclore egípcio, Reda a tudo misturava seus padrões de giros, “pas de bourrée”, arabesques e “soutenir”, criando uma forma elegante e sofisticada de interpretar qualquer dança popular. 
A influência do Balé na dança do ventre é histórica e tem haver com a própria concepção em si da linha estética de dança “Raks El Shark”.  A partir da década de 20, a bailarina que antes dançava seu baladi (sua dança popular) recebeu treinamento em balé e foi ensinada a se portar em cena. O Figurino foi alterado e a própria dança tomou outro nome, o que torna este estilo de dança cênico, artístico e fusionado em sua concepção, diferente das danças populares egípcias de onde vêm os movimentos de quadril assimilados.
A Reda Trupe surgiu muitas décadas após o início deste processo, quando já os coreógrafos folclóricos ou de dança oriental recebiam desde o início seu treinamento em balé. Acredito que a concepção da dança mowashahat tenha vindo como uma consequência natural.
Nadja El Balady




Inserção do estilo Mwashahat dentro de uma rotina oriental

Este estilo é comumente representado dentro do estilo musical conhecido como Rotina Oriental, Rotina Clássica, Opening Music, Mejance ou Mis em Céne. Este é um estilo que combina diversos estilos musicais em uma só música, fazendo uma espécie de “colcha de retalhos” cultural em cada composição. É comum que as rotinas modernas contenham um trecho de mwashahat, sendo representado por uma estrutura mais ou menos comum a todas as rotinas: A entrada de um ritmo que em cada compasso temos contagem ímpar - Vals (3 tempos) - e/ou extenso (com compassos de mais de 4 tempos) -  normalmente Samai (10 tempos) ou Masmoud Kbir (8 tempos) – acompanhado de arranjo musical com duas sonoridades melódicas predominantes: Violinos orquestrados e qanoum ou alaúde. Teremos uma frase musical tocada com violinos que se repetirá com qanoum ou vice-versa. Nada impede que entrem outros instrumentos como flautas e violinos solistas. Nada impede que sejam outros ritmos extensos utilizados além dos mencionados neste texto. Existem inúmeros ritmos que servem para compor Mwashahat. Aqui cito alguns dos mais comuns encontrados nas composições de Rotinas.
A bailarina pode interpretar este estilo através dos movimentos de Mwashahat ou não. Fica a seu critério. Dentro da leitura musical, o Mwashahat faz pouca distinção entre os instrumentos melódicos. Isto significa que a leitura corporal através do vocabulário de mwashahat não usaria sinuosos com tremidos para Qanoum ou alaúde, por exemplo. Ou sinuosos para flauta. O que eu, Nadja El Balady, acabo por escolher, é uma leitura mista, usando quadril para ilustrar Qanoum e alaúde, e o vocabulário de Mwashahat (de natureza aérea) para o trecho com os violinos.

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Nadja El Balady - Trecho de Mowashahat da música Nour ala Nour


Sobre Mahmoud Reda – fonte - http://egyptianacademy.com/jml2/mahmoud-reda


Nascido em 18 de março de 1930, no Cairo, Egito, Mahmoud Reda é um pioneiro do teatro de dança no Egito. Solista, coreógrafo e diretor de centenas de produções, Mahmoud Reda já percorreu mais de 60 países, realizando apresentações nos palcos mais prestigiados do mundo. Ele também foi o principal ator, dançarino e coreógrafo em filmes egípcios. Mahmoud Reda foi universalmente aclamado pela sua dança com a força e o apelo de um Gene Kelly ou Fred Astaire.  Em 1959, fundou a primeira companhia de dança folclórica, The Reda Troup, que consistia apenas de 15 membros, todos dançarinos. Hoje em dia, tem mais de 150 Membros talentosos, incluindo dançarinos, músicos e técnicos. A Troup apresentou-se em mais de 300 shows, incluindo danças e músicas folclóricas, com ritmo diferente e características diferentes, criando uma atmosfera de entretenimento e felicidade. A banda também participou de dois filmes musicais: "Férias de meio ano" e "Amor em karnak". A Reda Troup é endossada pelo governo egípcio "como um grupo capaz de representar o folclore egípcio, tanto na música como na dança." O grupo viajou pelo Egito pesquisando danças folclóricas e depois percorreu o mundo, promovendo aquelas danças como arte, digno de respeito.


Como solista, coreógrafo e diretor, Mahmoud Reda fez quatro turnês mundiais em 58 países, com sua trupe. Ele se apresentou nos palcos de maior prestígio do mundo como o Carnegie Hall (NY, EUA), Albert Hall (Londres, Reino Unido), centro de congressos (Berlim, Alemanha), teatros de Stanislavsky & Gorky (Moscou, União Soviética), Olympia (Paris, França) e das Nações Unidas (NY & Genebra). A trupe de Reda tem se apresentado para muitos líderes mundiais e chefes de estado. Sr. Reda recebeu da ordem das artes do Egito e ciência em 1967, a estrela de Jordan em 1965 e a ordem da Tunísia em 1973. Em 1999, ele foi homenageado pelo Comitê Internacional de Dança da Unesco e pela Conferência Internacional de dança do Oriente Médio, em maio de 2001.

Mahmoud Reda coreografa a partir de técnicas de jazz, ballet, dança Hindu e danças folclóricas da URSS. Seu trabalho influenciou o que é conhecido hoje como dança Oriental (Raks Sharki). Muitos membros do antigo grupo incluem professores como Raqia Hassan, Momo Kadous, Mo Geddawi e Daniel Sherif.  Mahmoud Reda continua a ensinar através de viagens, onde ele instrui a famosa técnica "Reda". 

Outra realizações de Reda 
Participante nos Jogos Olímpicos de Helsínqui em 1952, Mahmoud Reda representado Egito na ginástica depois de ganhar uma medalha de ouro no livre exercício no países árabes campeonato de Alexandria em 1950. Mahmoud Reda é bacharel em comércio da Universidade do Cairo. De 1982 a 1990 foi sub-secretário de estado no Ministério da cultura. Suas publicações incluem National Band "No templo de dança" para Artes folclóricas egípcias



Mahmoud Reda e Farida Fahmy


Texto Original em Inglês
Born on 18 March 1930 in Cairo, Egypt, Mahmoud Reda is a pioneer of dance theatre in Egypt. Soloist, choreographer and director of hundreds of productions, Mahmoud Reda has toured in more than 60 countries, performing on the world's most prestigious stages. He has also been principal actor, dancer and choreographer in popular Egyptian films. Mahmoud Reda has been universally acclaimed for his dance with the strength of and appeal of a Gene Kelly or Fred Astaire.

In 1959 he founded the first folk dance company, The Reda Band, which consisted only of 15 members , all dancers. Today,it has more than 150 talented members including dancers , musicians and technicians . The band has presented more than 300 shows including dances and folkloric songs , ballads , with different rhythm and different features creating an atmosphere of entertainment and happiness . The band also participated in two musical movies : " Mid year vacation " and " Love in Elkarnak". Reda Band is endorsed by the Egyptian Government "as a band capable of representing the Egyptian Folklore both in music and dances." The group traveled throughout Egypt collecting folk dances, and then toured the world, promoting those dances as fine art, worthy of respect.

As a soloist, choreographer and director, Mahmoud Reda made four world tours to 58 countries with his troupe. He performed on the world's most prestigious stages such as Carnegie Hall (NY, USA), Albert Hall (London, UK), Congress Hall (Berlin, Germany), Stanislavsky & Gorky Theaters (Moscow, USSR), Olympia (Paris, France) and the United Nations (NY & Geneva). The Reda Troupe has performed for many world leaders and Heads of states. Mr. Reda received Egypt's Order of Arts and Science in 1967, The Star of Jordan in 1965 and the Order of Tunisia in 1973. In 1999, he was honored by the International Dance Committee/Unesco and by the International Conference on Middle Eastern Dance in May 2001.

Mahmoud Reda draws from techniques of jazz, ballet, Hindu dance and folkloric dance from the USSR. His work has shaped and influenced what is known today as Oriental Dance (Raks Sharki). Many former troupe members include master teachers Raqia Hassan, Momo Kadous, Mo Geddawi and Yosry Sherif.

This spring, the world famous Mahmoud Reda Troupe and the National Folkloric Troupe joined forces to produce a full two hour extravaganza of one of Egypt's strongest national assets: its folkloric dances at Balloon Theater in Agouza, Egypt. Mahmoud continues to teach through tours where he instructs in the famous "Reda" technique. In July, He will be teaching a 2-days dance workshop in the San Francisco bay area, followed by workshops in Texas, Ohio and North Carolina.

Other Reda Accomplishments
A participant in the Olympic Games in Helsinki in 1952, Mahmoud Reda represented Egypt in gymnastics after winning a gold medal in free exercise at the Arab Countries Championships Alexandria in 1950. Mahmoud Reda holds a degree in commerce from the University of Cairo. From 1982 to 1990 he was Under-Secretary of State in the Ministry of Culture. His publications include "In the Temple of Dance" National Band for Egyptian Folkloric Arts

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Gêneros (Estilos) Musicais Árabes

Apostila de Gêneros Musicais Árabes
Por Nadja el Balady

Apostila de Gêneros Musicais Árabes

Esta é um estudo a respeito do nosso material de trabalho: A cultura musical árabe. Penso que a preocupação em conhecer estes contextos musicais podem muito bem nos tornar artistas melhores a medida em que compreendemos o que ouvimos e por isto temos mais recursos para interpretar.
Pesquisando, achei bem difícil encontrar definições fechadas. É um trabalho árduo e pode tomar anos.  
Esta postagem se destina àquelas que como eu, buscam mais informações para embasar sua dança. Vou complementando e modificando o conteúdo a medida em que aprendo mais sobre este assunto TÃO vasto e relativo....
Para entender os principais gêneros ou estilos musicais árabes, é necessário abrir os ouvidos e estar atento às combinações entre os ritmos e os instrumentos que compõe harmonia e melodia das músicas.
Conhecer os folclores e o conjunto de características sonoras de cada povo pode ajudar a bailarina a encontrar uma melhor interpretação corporal para cada música e entendê-las dentro do contexto de um espetáculo profissional tipicamente árabe.
É preciso compreender também que a arte não tem limites e não pode se resumir às gavetinhas que nosso cérebro tenta organizar para nosso entendimento. Os estilos musicais não estão separados por muros, ao contrário. Ao longo do tempo, um estilo influencia outro até que se forme um novo estilo derivado das misturas. Existem músicas que, inclusive, alternam em si mais de um estilo. Existe também uma diferença sutil, porém significativa, entre duas músicas de um mesmo estilo, sendo que uma foi composta para espetáculo de dança e outra para o rádio... Cabe à bailarina agir com sensibilidade para perceber como direcionar sua dança perante determinada música. 

Tentemos agrupar algumas músicas em estilos principais...
Procurei descrever aqui os essenciais para que uma bailarina profissional possa direcionar sua movimentação dentro da música que escolhe para dançar.
Excluí intencionalmente o estilo Folclórico por ser muito extenso e contar com uma infinidade de variações relativas a culturas populares específicas, de acordo com regiões e países árabes. Uma infinidade de tribos beduínas e etnias que devem ser estudadas separadamente.
Vale ressaltar que esta divisão não é alguma lei ou regra rígida. Foi feita livremente por mim, fruto de minhas conclusões baseadas em aulas, workshops, diálogos com músicos e pessoas ligadas ao mundo árabe em geral. Este modo de pensar tem me ajudado a compreender melhor a musicalidade que é meu instrumento de trabalho. Pode, inclusive, vir a sofrer alterações à medida que continuo estudando e crescendo como pessoa e profissional.


Mashallah / Música religiosa – Apenas para mencionar, existem diversos tipos de música religiosa árabe. Cada etnia, cada povo terá sua própria gama de composições. É muito importante ressaltar que não devemos usar música religiosa para show de dança. É pecado, de acordo com a religião islâmica. Com o tempo aprendemos a reconhecer os gêneros musicais e a escolher as músicas com segurança, mas mesmo assim podem acontecer equívocos. Este é um dos bons motivos para que você procure a tradução das músicas que você escolhe para dançar. Cuidado com a gafe!

Música sufi da Síria

Música sagrada islâmica do Marrocos

Música Clássica Árabe – Este é um gênero extenso e com diversas ramificações. Infelizmente não possuo informações suficientes para explorar este tema de uma forma completa. Desde a poesia pré islâmica, passando por todos os séculos de expansão do islamismo, do império otomano, das trocas culturais com o ocidente, a música árabe construiu sua identidade, que é a identidade cultural de uma etnia composta por diversos povos e nacionalidades. Popular e erudito são distintos, no entanto dialogam entre si em diversas composições através dos elementos musicais como ritmos e maqam. O que mais nos interessa, porém, são as ramificações clássicas utilizáveis para show de dança, como o Mwashahat, o Taqsim e os estilos criados a partir do século XX como as Rotinas Orientais e os grandes clássicos que podemos chamar de Tarab.


Antiga música persa



Muwashahat - É uma sofisticada forma musical que inclui vocalização e prolongados padrões rítmicos. Com estrutura clássica, vinda tradição musical religiosa, este gênero musical se originou na Espanha Islâmica durante o século dez.
Al Faruqi em seu artigo “A tradição andaluz”, descreve como um poema apresentado com música, consistindo de repetidos retornos a uma mesma estrofe como um refrão musical.
Jihad Racy escreveu que “é aceito comumente que esta forma musical foi introduzida no Egito por um músico vindo de Aleppo na Syria no final do século dezessete”. Este estilo se manteve muito presente na cultural musical do Egito até os primeiros anos do século XX.
Alguns dos ritmos utilizados na estrutura musical são ternários, em contagem 3, como a Valsa, porém  muitos dos ritmos encontrados são compostos, ou seja, possuem em um mesmo compasso contagem binária e ternária, como por exemplo, o ritmo Samai que possui em cada compasso 10 tempos, podendo se dividir em 3,4,3 ou 3,2,3,2. A maioria das composições coreográficas utilizam a métrica 3,2,3,2. A flutuação melódica sobre esta base rítmica constitui a essência do Mwashahat. Taqsim de flauta e alaúde, muito usados na idade média. Existem diversos ritmos que podem embasar este gênero de música. No passado os ritmos poderiam ser realmente longos, ainda mais longos do que o Samai.
Na moderna interpretação deste gênero, estes ritmos intrincados foram substituídos por outros mais curtos e mais dinâmicos em seus padrões. Enquanto a forma essencial permanecia intacta, instrumentos ocidentais eram adicionados, juntamente com uma harmonia simples e o contraponto. As letras dos poemas reeditados ainda retinham o idioma clássico e a metafórica forma descritiva da poesia Mwashahat.


Samai Nahawand

Samai Bayati

Diferente da música, a dança Mwshahat é recente e foi criada por Mahmoud Reda na década de 70. Este estilo acaba por definir a própria assinatura artística do trabalho deste coreógrafo. Podemos perceber ali a base do que podemos chamar Dança Oriental Clássica, naturalmente fusionada ao Balé Clássico.



Este estilo é comumente representado dentro do estilo musical conhecido como Rotina Oriental, Rotina Clássica, Opening Music, Mejance ou Mis em Céne. Este é um estilo que combina diversos estilos musicais em uma só música, fazendo uma espécie de “colcha de retalhos” cultural em cada composição. É comum que as rotinas modernas contenham um trecho de mwashahat, sendo representado por uma estrutura mais ou menos comum a todas as rotinas: A entrada de um ritmo que em cada compasso temos contagem ímpar - Vals (3 tempos) - e/ou extenso (com compassos de mais de 4 tempos) -  normalmente Samai (10 tempos) ou Masmoud Kbir (8 tempos) – acompanhado de arranjo musical com duas sonoridades melódicas predominantes: Violinos orquestrados e qanoum ou alaúde. Teremos uma frase musical tocada com violinos que se repetirá com qanoum ou vice-versa. Nada impede que entrem outros instrumentos como flautas e violinos solistas. Nada impede que sejam outros ritmos extensos utilizados além dos mencionados neste texto. Existem inúmeros ritmos que servem para compor Mwashahat. Aqui cito alguns dos mais comuns encontrados nas composições de Rotinas.


A bailarina pode interpretar este estilo através dos movimentos de Mwashahat ou não. Fica a seu critério. Dentro da leitura musical, o estilo de dança Mwashahat faz pouca distinção entre os instrumentos melódicos. Isto significa que a leitura corporal através do vocabulário de mwashahat não usaria sinuosos com tremidos para Qanoum ou alaúde, por exemplo. Ou sinuosos para flauta. O que eu, Nadja El Balady, acabo por escolher, é uma leitura mista, usando quadril para ilustrar Qanoum e alaúde, e o vocabulário de Mwashahat (de natureza aérea) para o trecho com os violinos.

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Taksim ou Taqsim - É a tradição musical de improvisação melódica que pode ser um movimento de uma suíte clássica, pode preceder uma composição musical tradicional árabe, grega, ou turca. O Taqsim é a essência da música médio oriental, sendo ao mesmo tempo um estilo musical em si, ou parte de outros estilos sejam eles clássicos ou populares. Uma música balady, por exemplo pode ter um trecho de taqsim, bem como um Mwashahat.
Taqsim é a improvisação baseada em um maqam (escala tonal) principal, onde o instrumento solista passeia por outras melodias e tons até retornar ao principal. Encontramos taqsim de vários instrumentos como violino, flautas diversas, qanoum, alaúde, acordeom, entre outros. Pode ser acompanhado por um ritmo, mas é comum que seja não métrico.
Taqsim pode ser considerado como uma conexão com o mundo espiritual.
Para nós, bailarinas, este é um momento de explorar a sensibilidade e a capacidade de improvisar. Deixar a emoção fluir, explorar os sinuosos e se deixar tocar pela melodia. É importante se concentrar na melodia, pois ela é a essência deste estilo de música. Se o pedaço tiver ritmo, é interessante tentar interpretar esta melodia dentro da métrica rítmica, equilibrando melodia com ritmo, surpresa com musicalidade, emoção e técnica.
O Taqsim Baladi é um estilo a parte. Pode ser definido como a alma da musicalidade popular egípcia. Improviso de Acordeom dentro do maqam estabelecido pela estrutura do Taqsim, e este dialoga com o derbake enquanto flutua pela melodia. Normalmente a percussão toca a base rítmica em Maqsoum ou Masmoud Saghir (baladi). Aconselho interpretar este estilo utilizando a técnica e a ginga baladi, bem egípcia, vestindo galabia para dar um toque bem popular a sua interpretação. 

Taqsim Alaúde

Taqsim Qanoum

Taqsim Nay

Taqsim Violino

Oriental / Sharq (Rotina Oriental) – Entendo por Rotina Oriental uma estrutura musical, oriunda da tradição musical clássica, que combina diversos estilos musicais árabes para formar uma só composição. Por isso, nela encontramos variedades de ritmos, instrumentação melódica e harmônica que remetem à musicalidade árabe como um todo, incluindo as tradições populares e folclóricas.
Com a evolução da dança do ventre cênica (de palco) durante o século XX, esta estrutura musical foi concebida para se prestar aos espetáculos de dança, sendo, hoje em dia, a maior parte destas músicas compostas com esta função específica, ou seja: Compostas especificamente para ser a música de abertura de um espetáculo de Dança Oriental, a entrada, onde a bailarina pode demonstrar técnica e conhecimento musical. Muitas vezes chamadas de "Entrance", "Mejance" ou "Opening Music", as variações destas músicas se determinam com o fluxo de mercado e com a evolução do tempo. Anteriormente as músicas tendiam a serem longas, muitas vezes respeitando a tradição árabe do improviso artístico. Hoje em dia as composições são cada vez mais curtas, e as apresentações cada vez mais coreografadas, atendendo às expectativas de público e eventos ocidentais.

Estas músicas, em geral, possuem estrutura similar, que podem ser divididas em:
Introdução, chamada, entrada, um trecho balady, um trecho com solo (taksim) de instrumento melódico, mwashahat, folclore, solo de derbake e finalização.
Pode – se encontrar músicas com todas estas variações, ou não. Assim como alguns trechos podem se repetir. Não existe uma regra obrigatória e pode ser que alguns elementos não apareçam. Ponto em comum é sempre a entrada da música, em geral composta com grandes acordes de violinos orquestrados.

Para dançar bem este estilo é imprescindível conhecer ritmos árabes, folclore e outros estilos musicais.
Randa Kamel

Clássicos Árabes e Tarab 
Quando falamos em Clássico Árabes, nos referimos diretamente às músicas que foram compostas em determinado período histórico,  entre as décadas de 50 e 70, quando o movimento de valorização popular transformou toda a cultura egípcia.
Equivalente à importância que a Bossa Nova teve para o Brasil, os Clássicos eram (e são) sinônimo de bom gosto e refinamento. Sinônimo de boa cultura, apreciado por muitos, não só no Egito, como em todo o mundo árabe.
São músicas tradicionais muito famosas, muitas delas em composições rebuscadas, feitas para ouvir e embalar sonhos de amor. Arranjos refinados, poesia sensível. São músicas cuja dramaticidade não pode ser ignorada pela pessoa que a está interpretando, seja na voz ou no corpo.
São famosas por sua complexidade musical, melodias elaboradas e nunca saem de moda no mundo árabe.
São músicas longas, divididas em partes ou capítulos, do mesmo modo como uma ópera é dividida em árias. Possuem grandes introduções e trechos instrumentais. A poesia é muito importante, é romântica e extasiada. As composições mais famosas foram compostas entre as décadas de 40 e 60, quando se eternizaram. O modo de compor foi sendo alterado com o passar do tempo de modo que nenhuma música moderna chega ao esplendor e poesia das composições deste período.
Musicalmente, este estilo utiliza variação grande de ritmos e estilos. Muitas vezes combinam estilos musicais populares e eruditos em uma só composição, alternando trechos "baladis", "taqsims" e  "mwashahats". 
Tarab é uma expressão que, em português, significa: “O êxtase alcançado por público e artista no momento em que a arte acontece.” Ou algo similar. Da tradição musical clássica egípcia. 
É difícil definir o que faz de uma música um “Tarab”. Segundo o professor egípcio Khaled Eman, Tarab é um estilo específico dentro das clássicas egípcias, pois além de serem músicas longas (com mais de uma hora de duração, normalmente), suas poesias precisam NECESSARIAMENTE começar com uma pergunta. E todo o resto da poesia seria uma viagem conduzida pelo artista na busca da resposta para esta pergunta e ainda depois de lamentações, apelos e esperanças esta resposta talvez ainda não se encontre ao final da música. Dentro deste ponto de vista, Tibidi Mnein El Hikaya seria um Tarab, mas Enta Omri não, pois não começa com uma pergunta.  Enta Omri e outras músicas muito famosas de Om Kalsoum, que nós aqui no Brasil conhecemos como Tarab, seriam tradicionais clássicas. Apesar disto, estas músicas têm as mesmas características musicais de qualquer outro Tarab.
Aliás, dançar uma música deste estilo é também se entregar à interpretação. Se a música for cantada, é necessário conhecer a tradução e o sentimento da letra em questão, mesmo que se esteja dançando uma versão instrumental. Muitas músicas destas possuem introduções grandes, não letradas, que podem servir para a bailarina utilizar em seu show sem a obrigatoriedade de interpretar, pois estas introduções não têm letra. Mas ao dançar a parte cantada, melhor podemos apreciar mediante a interpretação da bailarina que pode levar o público ao estado de “Tarab”.
 Vale dizer ainda, que este gênero não era utilizado em espetáculos e shows de dança até meados da década de 1980, quando a famosa bailarina Suheir Zaki interpretou pela primeira vez o grande clássico Lessah Faker em palco.
Om Kalsoum foi a mais famosa cantora do estilo, que teve como compositores mais famosos Mohamed Abdel Wahab, Abdul Halim Hafiz, Farid el Atrach, entre outros.
Exemplos de músicas clássicas que se interpretam como Tarab: Tibidi Mnein El Hikkaya, Inta Omri; Alf Layla wa Layla; El Hob Koulo; Leylet Hob, Daret Al Ayam, Lessah Faker.

Um Kulthum (Om Kalsoum) - Inta Omri

Orit Maftisir - Daret AL Ayam

Mona El Said - Howa Sahih

Sha’abi – Nos referimos neste estilo às músicas populares do Egito, especialmente as que usam a musicalidade do Cairo e adjacências. A palavra Sha'abi quer dizer literalmente "popular". Em teoria, qualquer estilo popular poderia ser assim denominado. Mas esta nomenclatura ficou conhecida pelos próprios egípcios para denominar um estilo surgido na década de 70 como uma resposta das classes menos favorecidas à música elitizada dos clássicos árabes. Mais ou menos como o surgimento do pagode no Rio de Janeiro, ou o brega do nordeste, o estilo se tornou um símbolo da região.
Existe inclusive um estilo marroquino conhecido como Chaabi. Mas aqui vamos falar do Shaabi egípcio, tanto o antigo já com músicas das décadas de 70 e 80 consideradas tradicionais, como o moderno conhecido como Street Shaabi, ou Mahraganat Shaabi.
Desde as músicas mais modernas às mais tradicionais e folclóricas, as composições deste estilo são frequentemente compostas com elementos típicos da cultura egípcia: Usam os ritmos maqsoum, falahi, said e podem incluir solos de acordeom e Mawal ( lamento poético improvisado, como um taksim de voz).
Na década de 70, a partir do acesso ao processo de gravação de fitas K7, a população suburbana do Cairo pôde compor, produzir e consumir suas próprias músicas. Um estilo fadado ao sucesso de consumo, fazendo as menina dos olhos das recém criadas gravadoras populares.

Eram músicas que falavam de coisas corriqueiras da vida comum e muitas delas eram bem românticas. É bem comum encontrarmos personagens nas letras das músicas, como a mulher formosa que caminha na rua chamando atenção, ou a moça feliz no dia do casamento, ou ainda o moço que sonha com o amor platônico da moça bonita que vê passar ao longe, dentre muitos exemplos do estilo. 

Grande compositor famoso do estilo na década de 70: Ahmed Adaweya. 
É importante ressaltar que as composições deste período eram bem próximas às características da música baladi. Mesmo povo, mesma região, mesmos instrumentos, mesmas frases melódicas, mesmos elementos musicais. O que diferencia é a passagem do tempo e a mudança de recursos técnicos, como o uso de sintetizadores e teclados que imitam outros instrumentos e barateiam o processo de produção.

Ahmed Adaweya - Bent El Sultan

Ahmed Adaweya - Zahma ya Donia Zahma


Com o passar do tempo, ao longo das décadas de 90 e primeira década dos anos 2000 o surgimento e fortalecimento da música pop egípcia. Processo de globalização, internet e o avanço da tecnologia, bem como o surgimento da MTV egípcia foram fatores fundamentais para a entrada de elementos ocidentais na música moderna do Egito. Vídeo clips, e cantores com visual cada vez mais ocidental. Batidas eletrônicas e elementos modernos.


Hakim - Salam Aleikom

Saad -El Enab

A partir do fenômeno político-social conhecido como "Primavera árabe", na virada da segunda década dos anos 2000, a música popular tomou uma características de músicas de protesto. Músicas de protesto político, músicas de protesto social. Músicas que falam sobre sexo e drogas. Músicas que clamam por liberdade e transformação social. Músicas que chocam, ou falam de amor. Músicas de baixa qualidade musical, mas sempre com um apelo popular muito forte. A música dos jovens de periferia. Do jeitinho do Funk carioca, um estilo que influencia a tudo, quer você goste, ou não. É cultura popular, quer você goste ou não. Vende, faz sucesso e dinheiro, quer você goste ou não.
Na dança, os jovens usam muitos passos de hip hop, street dance, até break. É um estilo bem americanizado, embora mantenha a essência musical egípcia.





Pra usar uma música destas no show de dança do Ventre é bem interessante prestar atenção na letra da música. Saber o que se dança e evitar  gafe e procurar um estilo popular para representação corporal. Em termos de figurino, evitar o figurino clássico de princesa. Pode ser uma mini saia, um figurino ousado, justo, com fendas. Que imite um vestido sexy de noite, ou ainda a boa e velha calça jeans.





"Nadja, esta música é Baladi ou Sha'abi?"
Muitas vezes minha resposta é: "Não sei"

Baladi cantado e sha'abi antigo se confundem de montão. Ambos os estilos são compostos, apreciados, tocados e dançados pela mesma população, embora o Street sha'abi tenha ainda uma conotação mais comercial. Acho que uma boa comparação seria a diferença entre o samba de roda e o pagode. Você sabe que tem uma diferença, mas saberia explicar para um estrangeiro qual é? Faz sentido que o gringo não saiba diferenciar de ouvido os diversos tipos de samba, não é? Mas você sabe qual é a diferença entre o samba de roda, o pagode, o de gafieira, o samba enredo e por aí vai. A diferença é quase intuitiva. No caso de baladi e sha’abi antigo,  ambos os estilos usam mesmos ritmos de base, principalmente maqsoum e fallahi, usam acordeom como instrumento melódico principal, têm uma maneira falada no cantar, falam dos mesmos temas. Tem até sha'abi que enaltece as qualidades da mulher baladi! Só mesmo um egípcio, ou um músico egípcio, pode efetivamente te apontar o que é baladi e o que é sha'abi.
Mas, não entrem em pânico!
A conclusão a que chego é que isto não tem tanta importância para você, dançarina. Uma vez, que a movimentação que você vai usar para interpretar a música é a mesma para baladi ou sha'abi tradicional. A diferença vai realmente existir quando você decidir interpretar uma música moderna. 
Isto vai fazer diferença na sua performance: Se a música é tradicional, ou moderna. O novo Sha'abi pede interpretação, figurino e movimentação modernas, uma maneira mais ousada de dançar, se vestir, se comportar.
Acho interessante mencionar que, no caso do Street Sha’abi, a maneira como os egípcios dançam estas músicas em suas festas, não será exatamente como a dançarina levará uma coreografia desta ao palco. Muitas vezes o que veremos é uma interpretação bem mais “belly dance” das músicas do que o que efetivamente é dançado pelos egípcios.  Nas coreografias vemos algumas referências de movimentação Sha’abi real, bem misturado com o trabalho de quadril da dança do ventre.



Pop / Modernas – Este é um termo bem abrangente para classificar determinadas músicas que são muito usadas para shows de dança, embora não tenham sido compostas com esta finalidade. Aqui vamos incluir músicas de diversos países e períodos, caracterizando um estilo renovável, com inúmeros intérpretes e compositores em todo o mundo árabe.
Músicas pop podem ser românticas e mesmo aquelas com arranjos mais refinados possuem em sua intenção um apelo comercial. São produzidas para serem tocadas no rádio, em videoclips e venda para grande público.
A música pop tem modificação de região para região, de um país para outro, de acordo com os ritmos e instrumentação característica de cada povo. Por exemplo, a música pop saudita terá características do Khaliji. O pop egípcio será Sha'abi e o libanês terá a musicalidade do Dabke.
Existe ainda a música árabe eletrônica, produzida para a pista de dança, batidas House, Electro, Trance, tocadas em boates e festas.
Uma outra linha é a das músicas românticas. Possuem refrão meloso e as composições mais modernas se aproximam muito, em determinado sentido, da música pop romântica ocidental. Aliás, podemos comparar este estilo à nossa MPB. É um estilo de música radiofônico, com apelo popular, melodia suave.
Vai se tornando cada vez mais pop com a inclusão de sintetizadores e a pasteurização dos arranjos. É como se fosse um pop lento...
As músicas egípcias têm uma musicalidade mais melancólica, em geral, e acabam soando musicalmente como as antigas composições clássicas, como “Tarab”, justamente pela influência da tradição musical egípcia. Entre as décadas de 70 e 80 vamos encontrar uma transição entre o antigo estilo clássico e as pop românticas. A cantora Warda tem diversas canções que, embora possuam arranjos simplificados e sejam músicas bem menores do que as antigas, são consideradas clássicos. Como exemplo, podemos citar "Batwanes Beek". Ainda grande para os padrões de hoje em dia, a versão original tem 14 minuto, mas já é bem menor do que os grandes clássicos de 1 hora de duração.

Pop Egípcio

Pop Libanês

Yama el Layali - Pop eletro

Pop Romântica

Warda - Batwanes Beek

Performance ou Raksa – Este é um estilo bem pouco comentado, mas recentemente descobri que alguns músicos dão a nomenclatura "Raksa" para um estilo que até então eu não possuía vocabulário para denominar. É, em realidade, um termo abrangente para músicas que são compostas para show de dança. O objetivo das composições é criar climas através de imagens sonoras, que são facilmente percebidas e interpretadas corporalmente, quase que contando uma história. São normalmente músicas instrumentais. Existem músicas para show de dança compostas dentro da estrutura tradicional, como a Rotina Oriental Clássica, ou mesmo as antigas músicas turcas de artistas como George Abdo e Eddie Kochak. O próprio solo de percussão é um tipo de composição para show de dança, porém podemos pensar nesta nomenclatura principalmente para as mais performáticas que se valem da musicalidade árabe em geral, de todos os seus ritmos e muitas vezes de fusões com outros gêneros musicais não árabes. Encontramos várias músicas destas em CDs de Cias de dança famosas. As americanas parecem apreciar bastante este tipo de música para shows. Não é normal encontrar uma egípcia dançando músicas assim. O que nos faz pensar que é um tipo de música voltada para o mercado ocidental da Belly Dance. Hossam Ramzy tem diversos CDs com várias composições excelentes nesta linha. Existem muitos outros compositores além dele. São músicas ótimas para dançar com acessórios como véus, espadas, leques, taças, etc...
Amar Gamal - Wings

Dança com espada

Solo de Percussão – Este estilo pode ser considerado tanto performático, como parte da tradição popular. Considerado o Taqsim da Tabla ou Derbake, que pode ou não ser acompanhado de outros instrumentos percussivos. Estilo musical inserido no show de dança, produzido no intuito de demonstrar refinamento e agilidade técnica do músico e da Bailarina. Arranjos e convenções de inúmeros instrumentos de percussão árabe, podendo o solo ser feito com apenas um músico, ou com vários. Pode ser utilizada toda a infinidade de ritmos árabes. Normalmente é o estilo escolhido para encerrar um show, após o folclore. Mas não é obrigatório. Aliás, nenhum estilo é obrigatório em um show. Existem inúmeras variações, mas geralmente, assim podemos observar. Existem solos de percussão que seguem regras musicais bem típicas da cultura egípcia, que são bem bacanas para usar trechos folclóricos nos shows, finalizando um taqsim baladi ou uma performance ghawazee. Existem outros solos que usam ritmos diferenciados, arranjos modernos e ficam mais ao gosto das dançarinas virtuose ocidentais. Estes podem ser dançados sem critérios folclóricos, onde a dançarina pode usar qualquer recurso corporal para sua coreografia.



Randa - Balady e Tabla solo

Sadie - Drum Solo

Estilos Musicais X Estilos de Dança
Podemos considerar os Gêneros Musicais como o conhecimento a respeito de cultura e música árabe que todas nós podemos adquirir, sendo árabes ou não.
Existem duas maneiras de interpretar a questão de estilos de dança. A primeira pode ser abordada pelo seguinte ponto de vista: Uma mesma música é interpretada por mim diferentemente de você, pois temos histórias corporais diferentes. Esta diferença é mais visível em grupos de bailarinas que desenvolvem a dança oriental como aspecto da sua cultura, ou aprendem a dançar na mesma escola, com os mesmos professores. Por exemplo: estilo egípcio, estilo libanês, turco, estilo argentino, americano, russo, europeu... ou ainda: Padrão Khan el Kalili, Estilo Tribal, Fusion Belly dance, etc...

Agora veremos uma segunda hipótese: a dos estilos de dança, considerando o domínio técnico e escolhas corporais de movimento para interpretação das músicas. O que diferenciaria a maneira como danço um clássico da maneira como danço um baladi, por exemplo. Que escolhas posturais, de movimentação de braços ou de deslocamentos uso em cada gênero de música? Diferentes estilos de dança significam diferentes leituras musicais, diferentes pontos de vista de uma mesma sonoridade.

Dentre os estilos de movimentação mais utilizados pelas egípcias e que concernem à própria história da Dança do Ventre, podemos listar:

Estilo Baladi – Estilo que define a essência da Dança Egípcia, relacionada à cultura do Norte do Egito, relacionado ao Cairo. Movimentação concentrada no quadril, pouca ou nenhuma fusão, pouca utilização de braços que são próximos ao corpo. Interpretação forte. Dança Popular Baladi.

Fifi ABdo

Observe que pode acontecer de a bailarina, sendo egípcia, manter o estilo baladi, mesmo em músicas clássicas.

Dandash

Estilo Clássico Oriental – Estilo que define a Dança do Ventre considerada com o surgimento da Dança Cênica, desde o Golden Age, com a expressão das estrelas do cinema egípcio, tendo seu apogeu no surgimento do Mwashahat e o estilo Reda. Funde elementos do Ballet com joelhos alongados, meia ponta alta, braços elevados, alongados, giros e deslocamentos.

Naima Akef - Golden Age

Coreografia de Mahmud Reda

Suheir Zaki

Nagwa Fuad

Estilo Egípcio Moderno - A dança do Ventre egípcia pós anos 90 com o sucesso da inovação do estilo egípcio de Dina e Randa. Bastante elementos de  Dança Moderna e Jazz.

Dina

Randa Kamel

Jade El Jabel

Folclore – Concernente a cada estilo folclórico, variando interpretações para palco ou representações populares. Nas criações cênicas é comum utilização de elementos do ballet, como giros, e posturas e também desenhos cênicos e formações coreografadas.



Performance e Fusões – Utilização de músicas compostas especificamente para o palco; Fusões da dança oriental com danças de outras culturas: Cigana, espanhola, indiana, brasileira, argentina, dark, etc, etc; Utilização de músicas ocidentais como rock, hip hop, samba, tango e etc... Utilização de acessórios e elementos cênicos variados e de qualquer natureza: Véus, taças, espadas, punhais, fogo, serpentes, etc, etc, etc... Puramente cênico, sem limites culturais para criação.

Thalita Menezes - Belly Rock

Tribal - A pesar de ser um ramo da Dança do Ventre, tem fundamentos próprios, princípios artísticos, estéticos e vocabulário que fazem ser um estilo fechado em si, aberto em uma dimensão diferente da Dança do Ventre do ponto de vista da cultura árabe. Consideraremos como um estilo de dança a parte, que também trabalha com fusões e que cresce do ocidente para o oriente e não ao contrário. Estilo livre  e fusionado desde sua criação, tem todo sua história ligada a dança do ventre americana. O estilo matriz é o ATS® (American Tribal Style®) da Cia FatChance BellyDance®, mas sua vertente mais famosa é o Tribal Fusion e sua diversidade criativa.


Fat Chance BellyDance



Bem interessante notar que Estilos Musicais e Estilos de Dança podem se cruzar, dependendo da escolha da bailarina e dos elementos culturais a qual o estilo musical é afeito, da concepção coreográfica e da assinatura artística de cada coreógrafo.

Não há nenhuma lei que te impeça de dançar deste jeito ou daquele outro na música que você quiser. Arte é arte. O que aqui é demonstrado através deste gráfico é fruto da observação e daquilo que considero como bom senso e bom gosto. Mas claro que cada um tem o seu.